Sentada numa cadeira de costas largas deslumbrava-se com a repartida luz que entrava na sala através de uma janela que continha seis perfeitos quadrados, dois deles encontravam-se de tal forma ferrugentos que pareciam ter sido acrescentados ali propositadamente – aqueles dois de seis eram diferentes, não pertenciam ao conjunto, eram os excluídos de uma esbelta janela enquadrada pelo mais belo crepúsculo que ela já alguma vez presenciara. Sempre fora uma admiradora da luz e da forma como ela invadia cada recanto de um espaço, talvez essa singela admiração lhe tenha provocado um devaneio de querer ser pintora, para que pudesse retratar a beleza da forma que a via, que frequentemente passava despercebida aos olhos das outras pessoas. Essas que apenas viam o que queriam, numa selecção que impressionaria Darwin. Tudo se tornara uma escolha pessoal, inclusive o que se apresentava aos olhos de todos por igual.
Apanhou os cabelos lisos e sedosos, mas sem brilho – estava cansada e tal estado reflectia-se na sua pessoa: sempre fora extremamente transparente. O desejo de sentir-se viva emanava por cada um dos poros do seu corpo, era praticamente uma demandada, porém a sua mente invadia-se com listas intermináveis de assuntos pendentes. Resolveu retirar o espelho de dentro da mala, o seu conteúdo já se encontrava semi-espalhado pela sua mesa de trabalho. Ao olhar o seu reflexo assustou-se com os sulcos negros debaixo dos olhos fatigados – também estes não se apresentavam reluzentes como antigamente.
A vida que outrora a fascinara parecia ter desaparecido no horizonte. Que acontecimentos a haveriam levado àquele ponto de ruptura? Largou as folhas repletas de números e anotações e pensou no momento em que deixara de ser feliz. Não poderia ter sido antes do fim do Verão, esse passou ameno e temperado de algumas maravilhosas aventuras. Fora depois… mas não muito depois. Trancara aquelas memórias num recanto do pensamento, esperando que não fosse notado tão cedo, porém ainda a olhar para a sua imagem desgastada entendia o quão importante era resolver aquele assunto com ela mesma – não com outros, com ela. Caso contrário lamentava ter perdido a vontade de sorrir – aquela característica que todos admiravam nela.
Poderia argumentar – consigo mesma – que o problema com o qual se deparava era o facto de não aguentar as pessoas. Achava-as irascíveis, irritantes e extremamente previsíveis, o que levava a um ligeiro aborrecimento. A verdade é que se fartava das suas companhias rapidamente, apesar do problema ser das pessoas (no seu ver!), também era seu… Era aquele seu carácter impaciente e demasiado exigente – ela sabia perfeitamente que não podia exigir dos outros aquilo que exigia de si, era injusto e tinha essa noção. Porém ao colocar tudo em prática parecia-lhe inaceitável que as pessoas vivessem em tão baixos padrões de exigência e responsabilidade. Talvez devesse argumentar que nem todos são iguais, mas na sua perspectiva era aquela a maior fraqueza da humanidade. Por muito que ela quisesse viver as suas paixões, existia uma responsabilidade que a transcendia – era nela que pensava quando as listas de afazeres aumentavam e uma vontade de largar tudo a invadia. Queria, porém não o podia fazer…
Quando se tornara tão velha? Tão responsável? Tão seca?
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Sentia um vazio – aquelas paixões abandonadas haviam-no criado. Este era o seu pesar, o seu arrependimento. Porque não fugir de tudo? Responsabilidade. Porque não seguir a sua vontade? Responsabilidades. Porquê? Porquê? Porquê? Responsabilidades.
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Ao fim de horas o sol havia desaparecido, uma ténue luz alaranjada surgia das ruas adjacentes ao edifico. Se não fosse ela capaz de se apaixonar novamente pela vida de que valeria viver? Pelas responsabilidades? Não. A resposta é pelas suas paixões, por tudo aquilo que ainda não aconteceu e ainda a esperava ao virar da esquina.
Agora ela sabia: vale sempre a pena viver pelo inesperado, o imprevisível, a indefinição do futuro.