Podes chamar-me cobarde, mas a verdade é que não sou capaz de o dizer em voz alta – isso tornaria tudo isto real, como é na verdade. O problema não é teu, mas também não é meu, é um problema nosso que temos de resolver, pois esta situação está a tornar-se degradante e estou cada vez mais deprimida.
Como não consigo falar contigo sem que comecemos a gritar uma com a outra e sem que entendas a mensagem que estou a tentar passar pensei em escrever tudo o que sinto para ver se assim a mensagem passa de uma vez por todas, porque depois desta carta vou simplesmente deixar de falar no assunto, vou seguir em frente e não vou olhar para trás. Agora cabe-te a ti se a vais ignorar ou aceitar o que te tenho para dizer.
Estou farta de gritar, farta de chorar às escondidas, farta de andar zangada só e apenas contigo. Sei que cometo erros – como qualquer outro ser humano – e não sou um exemplo que consideres válido, também sei que me achas, e eu mesma tenho a certeza disso, que não sou a melhor pessoa para demonstrar o que sinto e por isso pareço fria – mas não sou, esta é apenas aquela pessoa que me tornei ao longo dos anos, e não o irei mudar pois faz parte de mim e de quem realmente sou. Não te dou razões de queixas, nestes últimos anos tenho feito tudo aquilo que queres, tenho te deixado escolher o meu próprio caminho e abdicado de algumas coisas que gostaria de experimentar, sempre deixei que me tomasses como tua e sempre garantida – no final a culpa é minha, tão simples quanto isso, não o deveria ter permitido. Sempre tive comportamentos de excelência, sempre mantive as minhas boas notas, sempre fui responsável e não me deixei levar por maus exemplos e companhias que sabias que tinha, não era por isso que mudei quem sou, e mesmo quanto tens ciúmes dos meus amigos eu aguento porque sei que estás no teu direito mas tens de compreender outras coisas:
Sempre me deste tudo o que quis (materialmente!). Já te passou pela cabeça que durante estes anos que te enclausuraste no teu emprego o que eu precisava realmente era de ti? Era de uma mãe presente? Não me podes vir dizer que me conheces, que sabes quem sou porque realmente não sabes. Saber o prato favorito de uma pessoa não é conhecê-la verdadeiramente. Se pensas que viver com um pai ausente é mau, experimenta viver com os dois.
Aprendi a viver sozinha, a depender apenas de mim, a fazer as minhas próprias regras, aprendi o que era o mundo e assim criei o meu próprio cantinho – o único que conheço.
Após tudo isto o que te peço é que confies em mim REALMENTE e não apenas dizer que confias, porque não o fazes. Estás sempre a pensar que se eu sair mais ou tiver uma rotina diferente vou desencaminhar-me quando não vai acontecer nada disso, acho simplesmente ridículo, mas no entanto estás na tua preocupação materna o que eu tento compreender mas não é nada fácil para mim, mesmo nada fácil…
O que pensas é que é apenas a tua vida é que é difícil, pensas que não tenho problemas e quando os tento banaliza-os de tal maneira que fá-los parecer insignificantes quando não são! São os meus problemas!
Não sabes como é que foi, e ainda é, a minha vida. Levar diariamente com as pessoas a dizerem-me que cometi um erro ao entrar para a área que entrei, que joguei uma oportunidade para o lixo, que eu era brilhante. E, era verdade. Eu era brilhante, e não sou mais porque ainda estou a aprender tudo de novo. Não sabes como me sinto ao no passado saber tudo e agora não saber nada, quase como se me tivesse tirado o valor que tinha. A única pessoa que tive no meio desta crise foi ela, porque até tu no inicio me tentas-te fazer desistir da ideia, de um sonho.
Não sabes o que é ter abandonado os meus melhores amigos, as pessoas que no mundo eu achava que eram as mais parecidas comigo – faziam-me tão mas tão feliz… – para agora estar inserida no grupo de indivíduos que em nada têm a ver comigo. Sinto-me sozinha, sinto-me muito sozinha no meio de dezenas.
Tu não és uma má mãe apenas não tens muita prática nisto – sendo bastante sincera. Estavas ausente e agora, de repente, queres estar presente. As coisas não se fazem assim, tens de ir com calma. Magoas-me no processo em que és intransigente com coisas fúteis e banais, no fundo sei que estás a tentar com que eu não cometa os mesmos erros que tu, mesmo sem te preocupares de em me perguntar como me sinto. A frase “prefiro que sejas tu a chorar que eu um dia mais tarde” deixou de fazer sentido, porque eu sei tomar conta de mim e mais uma vez só te peço um pouco mais de confiança! Será pedir de mais? Eu não acho.
Não quero escolher outra família pois amo a que tenho, é com ela que aprendo mas simplesmente não consigo continuar assim. E além da confiança peço-te que me deixes ser quem sou, deixa de tentar mudar-me porque não vais conseguir – tenho muito orgulho na pessoa que me tornei pois reflecte a minha história. Preciso de espaço para cometer os meus erros, os meus próprios erros!
Se isto continuar assim tenho receio que vamos perder a relação que tínhamos, vamos tornar-nos ainda mais distantes e nada disso pode ser recuperado. Não quero isso, mas também não vou deixar de viver a minha vida só porque tu tens medo, não é justo nem para mim nem para ti.
Se me deres uma verdadeira oportunidade irei provar-te que estás redondamente enganada.
Basicamente era o que te tinha para dizer… Espero que faça sentido ou pelo menos que faça a diferença. Encerrei o assunto, agora e para sempre.